Dualismo pessoal



Em mim, há uma força capaz de mudar o mundo.
Em mim, há a luta para mudar a mim mesma.
Em mim, tenho desafios diários para vencer.
Em mim, habitam ousadia e covardia.
Qual eu vou carregar hoje?

Em mim, está quem teme a mesmice.
Em mim, está o receio de arriscar.
Em mim, encontro sensibilidade para ver o outro.
Em mim, encontro o julgamento contra mim mesma.
Como vou escolher me ver hoje?

Em mim, mora a única capaz de me descobrir.
Em mim, mora a minha maior inimiga.
Em mim, existe o sorriso acolhedor.
Em mim, existe o olhar que condena.
Qual vai estar na minha face hoje?

Em mim, há a esperança de dias melhores.
Em mim, há a hipocrisia de quem não começa a mudança.
Em mim, tenho braços que confortam.
Em mim, tenho a boca que fere.
Como vou usar-los hoje?
Hoje, escolho minha melhor versão.
Amanhã, será uma nova luta.
Mas hoje vou despertar o melhor de mim.

Texto: Letícia Gabriele Saraiva

Felicidade que gera infelicidade

Ilustração de Gerhard Haderer

 ''O homem na ânsia de buscar a felicidade esquece de ser feliz'' 
    Aristóteles dizia que tudo que o ser humano faz é mirando a felicidade. Apesar de ter dito isso tantos anos atrás, esse pensamento pode ser considerado atemporal e aplicável a toda a história da humanidade. Sem prolongar muito essa ideia, comento apenas duas coisas:
1. Você conhece alguém que faça/planeje algo objetivando a própria infelicidade?
O que não significa que não sejamos infelizes em alguns momentos, mas não é uma situação premeditada, e sim, um resultado não desejado de alguma ação nossa ou reação nossa a ação de outro(os) e que ficamos entristecidos. Além das situações inesperadas da vida, que não estão no nosso controle, e que podem gerar infelicidade individual e mesmo coletiva. Mas não consigo imaginar uma pessoa que deseje infelicidade para si. 
2. Se você está lendo isso, certamente faz uso de redes sociais, com poucos minutos observando elas, percebe-se que a felicidade ou é desejada, ou exposta, ou ilusoriamente criada, ou invejada. 

Do comercial de margarina (e tantos outros comerciais) ao feed das redes sociais, a felicidade é o fim único, é a que é aceita nos mais diversos ambientes. Contemplar a felicidade é contemplar o novo belo, o fato dela ser real ou não é, no geral, um fato ignorado. De acordo com uma pesquisa, não seria exagero abordar a ''banalização da felicidade''.

O psicólogo Luciano Espósito Sewaybricker, ao realizar um pesquisa no Instituto de Psicologia da USP, disse ''Tanto será menor a qualidade da felicidade, quanto mais se fala dela, neste caso".  Referindo-se a nossa sociedade baseada no consumo (e eu, Letícia, audaciosamente me intrometo e estendo esse conceito do consumo a coisas não apenas materiais) e no desejo de satisfação. 
Retornando à frase inicial, cujo autor desconheço, e relacionando com a fala do psicólogo, a banalização da felicidade, que ocasiona essa perca em sua qualidade, explica porquê podemos buscar a felicidade e esquecermos de ser feliz. E porque isso acontece? Porque nunca estamos satisfeitos, a felicidade sempre parece estar no futuro. 

Viver uma vida baseada em um felicidade que parece nunca estar no momento, que ainda precisa ser alcançada, é viver uma vida de insatisfação. Pois sempre existirá mais para ser alcançado ou então o mundo externo manipulará essa ideia e criará novas ''necessidades'' para você. 

Na sociedade líquida relata por Zygmunt Bauman tudo é efêmero, ou seja, não permanece. O mundo se modifica a cada instante, o que pode gerar uma insatisfação e vazio, os quais podem gerar ansiedade. 
A busca incessante por uma felicidade inalcançável em um mundo tão mutável gera, no mínimo, o seu oposto: infelicidade. 

O que desassosega mais: a vida ou a morte?



Refletir sobre a morte sempre foi um costume e falar sobre nunca me foi um problema. Na minha casa, já me ouviram falar sobre doação de órgãos, cremação, onde jogar as cinzas e a música também já está escolhida.

Mas algumas perguntas sempre me deixavam ansiosa e com certo receio e, em alguns dias, ainda deixam: Será que eu vou saber viver? Será que eu vou aguentar viver? Será que eu vou saber lidar com a vida?

O que me traz calmaria e esperança é saber que a caminhada é mais importante que a chegada. É viver esse trajeto. É ter a plena consciência de entender que posso não ser ainda a minha melhor versão, não ser ainda a melhor cristã, a melhor filha, a melhor amiga, posso não ter chegado onde quero, não ter feito nem 1% das viagens que quero, nem alcançado metade da metade dos meus objetivos, mas que diariamente vivo para que isso se torne real. É sobre não me negligenciar, não me autossabotar. É sobre não culpar as circunstâncias ou os outros. É sobre se entregar, é sobre construir minha história e a viver diariamente. 

Viva com excelência, afinal é a sua vida, A SUA VIDA.

Como disse Bertolt Brecht, tema menos a morte e mais a vida insuficiente.
E Francisco de Quevedo, "Feliz serás e sábio terás sido se a morte, quando vier, não te puder tirar senão a vida." Por fim, Carpe Diem (aproveite o dia).

Legenda da imagem: você não simplesmente acorda e se torna uma borboleta, crescer é um processo. 


Amor é fogo que arde sem se ver - Luís Vaz de Camões

Amor é um fogo que arde sem se ver, É ferida que dói, e não se sente; É um descontentamento descontente,  É uma dor que desatina sem doer.  ...